Se o cenário é de expansão, a realidade da porteira para dentro é mais apertada
O agronegócio brasileiro encerrou o último ciclo com a maior participação já registrada no PIB nacional , 25% da economia, 28% dos empregos formais e metade de todas as exportações do país. O Brasil já lidera as vendas externas de soja, algodão, café, açúcar, carne bovina, frango, suco de laranja e celulose, e está a apenas dois bilhões de dólares de ultrapassar os Estados Unidos e se tornar o maior exportador de produtos agropecuários do mundo. A avaliação é de Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio. Para ele, o momento exige atenção redobrada: recordes de exportação convivem com a margem mais baixa da história recente para o produtor de soja.
O desempenho exportador do Brasil nos últimos anos surpreende, na pandemia, as vendas externas do agronegócio saltaram de US$ 100 bilhões para US$ 160 bilhões, um acréscimo de US$ 60 bilhões em pouco mais de um ano e meio. E o crescimento não foi apenas em valor. Segundo Cogo, entre a pandemia e os últimos anos, as exportações cresceram em volume físico: 63% a mais em carne bovina, 25% em frango, 31% em carne suína, 40% em açúcar e 31% em soja. “Muita gente fala que os preços subiram na pandemia, mas nós crescemos em volume”, ressaltou o consultor, distinguindo apreciação de preço de expansão real de mercado. Esse avanço ocorreu em meio a guerras, disputas tarifárias e instabilidade geopolítica.
Quando o governo norte-americano anunciou novas tarifas — o chamado “tarifaço” — havia temor de que o Brasil perdesse espaço na carne bovina, no suco de laranja e em outras commodities. O resultado foi o oposto: o ano do tarifaço registrou novo recorde de exportação. “Nós estamos a dois bilhões de dólares de alcançar os Estados Unidos. Isso vai acontecer, talvez nesse ano, ou no máximo no próximo”, afirmou Cogo. O Brasil, que vende para mais de 200 países, consolidou sua posição como fornecedor confiável de alimentos para o mundo — algo que o consultor considera uma virada histórica de percepção global sobre o país.
Se o cenário é de expansão, a realidade da porteira para dentro é bem mais apertada. A margem sobre o custo total da soja chegou a apenas 2,24% — o nível mais baixo da série histórica. O custo operacional está acima de R$ 26,00 por saca, e o custo total, quando incluídas depreciações, amortizações e o custo de oportunidade do capital — um fator especialmente relevante num país com taxa Selic em torno de 13% a 14% ao ano —, comprime ainda mais o resultado. “A margem sim é uma margem apertada, uma margem pequena”, disse Cogo. “E num momento como esse, você só deve adotar uma nova tecnologia se ela realmente gerar resultado. Não é questão de margem alta ou margem baixa — é uma questão de sobrevivência.”
O câmbio amplificou o problema. Em um ano, o real perdeu 20,5% de valor frente ao dólar. Como a soja é cotada em dólares, a desvalorização deveria se traduzir em receita maior em reais. No entanto, a soja ainda está, segundo Cogo, a R$ 5,00 abaixo do patamar do ano anterior, com custo substancialmente mais alto. “Ano muito mais desafiador”, resumiu o especialista. Para ele, o câmbio é uma ferramenta que o produtor não pode ignorar — e recorrer a instrumentos de hedge cambial, como opções de compra e travamento de dólar, tornou-se uma necessidade, não um luxo.
O custo dos insumos é o ponto de maior vulnerabilidade estrutural identificado por Cogo. O Brasil é o maior importador de fertilizantes do mundo e depende do exterior em proporções preocupantes: 98% do nitrogênio consumido no país é importado, 56% do fosfato e quase 100% do potássio. Mais grave: 45% desses insumos vêm de países com algum tipo de instabilidade política ou geopolítica — Rússia, China, Qatar, Irã, Omã. “Além de você ter um produto do qual depende, você depende de parceiros que não são parceiros confiáveis — são parceiros que têm problemas políticos”, alertou o consultor.
Fonte: Agrolink – Aline Merladete

